Diretor criativo do Reino Studio e fundador da Amia Interactive, empresa de IA voltada ao autoconhecimento, Pedro A. Brêtas cresceu entre a psicanálise e culturas internacionais, isso o tornou um intérprete singular da relação entre o humano e o digital. Nesta entrevista, ele fala sobre o que une criatividade, liderança e a tecnologia para, paradoxalmente, nos tornarmos mais presentes para nós mesmos.
A Vistage valoriza não só as empresas, mas as histórias de quem está por trás delas. Você pode nos contar um pouco da sua trajetória, de onde veio, o que te trouxe até aqui e quais momentos foram decisivos para quem você é hoje como profissional e como pessoa?
Sou filho de um diplomata e de uma psicanalista. Como meu pai era diplomata, nasci nos Estados Unidos e vivi uma parte importante da minha vida em trânsito, pulando de país em país. Morei nos EUA, depois em Portugal, depois na Nigéria e voltei para o Brasil. Além disso, passei boa parte do tempo visitando meu pai em outros países.
Nesse universo da diplomacia, cheguei a estar em almoços e eventos com autoridades diplomáticas e políticas, e percebi que, por trás de todo aquele protocolo e decoro, existem pessoas.
O outro lado dessa formação veio da minha mãe, psicanalista. Ela me educou a saber escutar. Desde criança, quando eu chegava em casa, ela começava com perguntas sobre o meu dia e, de repente, a gente estava conversando sobre Deus e filosofia. Esse universo intelectual de curiosidade foi algo que tanto meu pai quanto minha mãe cultivaram muito em mim.
Me formei na PUC como designer e, em determinado momento, fui fazer mestrado na Irlanda. Esse movimento foi, ao mesmo tempo, uma fuga e uma descoberta. Estava um pouco de saco cheio do Rio de Janeiro, da violência, da confusão.
Quando cheguei em Dublin, foi um choque de outro tipo. Eu andava pela cidade à noite sem olhar para trás. Uma coisa pequena, mas que diz tudo sobre o que é crescer no Rio. É impressionante ver prédios de mais de mil anos lado a lado com prédios modernos. Um estado que funciona muda a sua perspectiva sobre o que é possível.
O que eu não esperava era o efeito do clima. A Irlanda é um país frio, muito nublado, que chove quase todo dia. As cores são opacas. A gente acha que as decisões são puramente racionais. Mas uma coisa tão banal quanto o clima pode virar a chave de algo que você nem sabia que estava sentindo. Como diz a máxima: o coração tem razões que até o próprio coração desconhece.
Foi nesse contexto que o projeto do meu mestrado foi sobre o Brasil. E eu, que detestava música brasileira, voltei fã de samba. Fui para a Irlanda para fugir do Brasil e me apaixonei pelo Brasil nessa fuga.
Quando voltei, já tinha experiência profissional prévia: trabalhei em agências de design antes do mestrado. Fui trabalhar numa grande produtora, onde conheci meu sócio, o Vinícius Malvão. A gente se entendeu muito bem e decidiu abrir o nosso próprio negócio. Esse casamento dura 13 anos.
Hoje a minha agência atende basicamente o mercado internacional, o que, olhando em retrospecto, faz todo sentido para um filho de diplomata. É aquela coisa de saber lidar com o diferente, de conseguir conversar com culturas distintas. E a influência da psicanálise aparece no meu trabalho mais recente, que envolve inteligência artificial. Tudo se conecta de uma forma que eu não havia planejado, mas que faz muito sentido.
Você lidera uma agência criativa e, ao mesmo tempo, fundou uma empresa de IA voltada para conexões humanas. Como esses dois universos, o criativo e o tecnológico, dialogam dentro de você?
Essa pergunta pressupõe uma fronteira entre criativo e tecnologia, o que é compreensível, porque as pessoas costumam separar os dois. Mas, na minha visão, todo projeto criativo precisa de um meio, e todo meio pressupõe uma tecnologia.
Pense no homem das cavernas: ele precisava da tecnologia da tinta para fazer os desenhos nas paredes. Escrever um livro exige a tecnologia da imprensa. Fazer um site exige a tecnologia da web. A tecnologia está completamente entrelaçada com o criativo; você não consegue separar as duas. É o que permite que a criatividade exista.
No caso do Reino, minha agência, o trabalho é basicamente de tradução estratégica. Atendemos principalmente empresas e agências internacionais, ajudando a transformar ideias complexas em marca, linguagem visual, produtos digitais e experiências. Muitas vezes, o cliente tem uma visão, uma ambição ou um problema de comunicação, mas isso ainda está desorganizado. Nosso papel é dar forma a isso dentro de uma cultura, para um público específico, com clareza, consistência e sensibilidade. Pode virar uma identidade visual, um site, uma instalação interativa ou um sistema de design inteiro. No fundo, são formas diferentes de responder à mesma pergunta: quem você é, o que você tem a oferecer e por que alguém deveria se importar. É uma tradução de dentro para fora.
Já a Amia é o movimento inverso: uma tradução de dentro para dentro. Você está conversando com você mesmo, com o suporte da inteligência artificial. São dois projetos de tradução, um voltado para o externo, outro para o interno, e ambos dependem de tecnologia para existir.
A tecnologia, especialmente a IA, costuma ser vista como ameaça à criatividade humana. Você, que trabalha exatamente na fronteira entre as duas, como enxerga essa relação?
É uma pergunta que gera muita ansiedade no meu meio, e eu não me excluo disso, porque as coisas estão avançando muito rápido. Mas toda tecnologia é ambivalente: um carro pode transportar pessoas, mas também pode matar. Não existe tecnologia sem risco embutido.
Na minha visão, um grande risco da IA para a criatividade é a preguiça, e a preguiça não é nova. Na faculdade, havia alunos que eram contra softwares de design, porque achavam que algo do processo manual estava sendo perdido. Tinham razão em certa medida, mas o mercado exigia adaptação.
Tem uma história interessante do Sócrates: dizem que ele era contra a escrita porque achava que ela era ruim para a memória. Curiosamente, não existe nada escrito por ele; foi Platão quem registrou os diálogos. Tem coisas que você ganha, tem coisas que você perde. O GPS é um ganho sensacional: você não precisa mais ter 50 mil ruas na cabeça. Mas é impressionante o que os taxistas conseguiam fazer sem ele.
O risco real é usar a IA para terceirizar o seu cérebro. Você vê o resultado: 95% do conteúdo no LinkedIn hoje é genérico, sem ponto de vista, sem sabor. Isso é um risco real para a criatividade, uma homogeneização das coisas.
Mas tem outro risco que eu acho ainda mais perigoso: a câmara de eco. A IA aprende o que você quer ouvir e começa a te devolver uma versão editada de você mesmo: articulada, interessante e levemente grandiosa. No fundo é um elogio barato a serviço de engajamento e atenção. E para um criativo isso é especialmente complicado porque a gente é vaidoso. Buscamos validação externa. Quando a IA começa a fornecer isso sem limite e sem custo, você para de querer a resistência que de fato te faz produzir trabalhos melhores. Criatividade precisa de resistência.
Mas ao mesmo tempo, a IA pode ser usada como um parceiro de pensamento, e essa, na minha opinião, é a forma mais inteligente de utilizá-la. Quase como uma academia para a sua cabeça: você não vai à academia para que ela faça musculação por você. Você vai para se fortalecer. A IA pode criticar suas ideias, mostrar pontos cegos, te fazer refletir. Usada assim, é um parceiro criativo muito poderoso.
No meu trabalho diário, diria que passo cerca de 50% do tempo com ferramentas de IA rodando em paralelo, de texto, de vídeo, de voz, de imagem. São todas pagas, e valem cada centavo. Você tem que se adaptar, como sempre foi com qualquer tecnologia. Não tem jeito.
Criatividade e liderança muitas vezes entram em tensão; o criativo quer explorar, o líder precisa decidir e entregar. Como você equilibra isso dentro de você e nos times que lidera?
Essa pergunta me gerou muitos aprendizados, especialmente no começo do Reino. O objetivo quando criei a agência foi desenvolver mais o trabalho criativo: queria um lugar onde a gente pudesse explorar, criar e pensar os projetos de forma mais significativa.
Logo no início, com menos de dois anos de empresa, fomos chamados por uma produtora com uma ideia muito interessante: conectar a identidade dela com o universo da ecologia. Fiquei empolgado, cheio de ideias mirabolantes. Mas o dono foi direto: precisava do site em um mês. Fiz o orçamento com duas ideias incríveis na cabeça e precisava de dois meses. Coloquei dois meses na proposta. Achei que a criatividade ia vencer.
A criatividade não venceu. Um concorrente entrou, fez um site mais simples em duas semanas, usou um template e entregou o que o cliente precisava naquele momento.
Aquilo me abriu os olhos. Como líder, você precisa entender qual é a prioridade do outro lado para encontrar um meio termo. O que o time de comunicação valoriza? O que a tecnologia valoriza? E, principalmente, o que o público que vai ser atingido valoriza? Fazer essa ponte é um trabalho de diálogo, e é muito do que um líder criativo precisa aprender a fazer.
Aprendi também que a criatividade sempre precisa de limites. A ideia de que criatividade não precisa de restrições é falsa. O criativo funciona melhor quando tem clareza das expectativas e das limitações. Quando um cliente chega e diz “você tem toda a liberdade do mundo”, pode ter certeza que as chances de dar errado são muito altas, porque sem balizas não há direção. Criatividade por criatividade só funciona em filme.
Sua empresa de IA tem como propósito criar relações entre tecnologia e conexões humanas. De onde veio essa ideia e o que você quer que ela transforme no mundo?
A Amia tem origem antes da Vistage, mas a Vistage foi importante para que ela ganhasse corpo e coragem. É uma combinação de coisas que se conectaram ao longo do tempo.
A primeira é o amor que tenho pela psicanálise, aquele universo de escuta e autoconhecimento que minha mãe me apresentou desde criança. A segunda é o surgimento das LLMs, uma tecnologia que criou uma oportunidade de negócio que simplesmente não existia antes. E a terceira é uma percepção sobre o mundo em que vivemos hoje.
A gente vive num mundo extremamente performático. Você acorda de manhã já achando que não vai dar conta e, ao mesmo tempo, precisa manter sua vida pública no Instagram, no LinkedIn. Essa performance compulsória gera um sentimento de insuficiência muito grande.
Há um filósofo coreano, Byung-Chul Han, que escreveu um livro chamado A Sociedade do Cansaço e que fala exatamente sobre essa performance compulsória que gera doenças mentais. Muitas vezes você performa tanto que nem sabe mais quem você é.
Além disso, existe uma questão de acesso: um espaço de autoconhecimento como a psicanálise pode custar entre R$ 600 a R$ 2.000 por mês no Brasil, dependendo da cidade e do profissional. Para a maioria das pessoas, esse é um valor difícil de sustentar. Muita gente simplesmente não tem um espaço onde possa se perguntar com profundidade: o que eu realmente quero? Quais são meus padrões? Quais são minhas forças e fragilidades?
A Amia é basicamente uma IA que busca promover o autoconhecimento. Você conversa com ela a partir de perguntas que ela faz e vai se descobrindo, porque ela constrói junto com você um diário de reflexões. Ela não substitui um psicólogo. Existe algo na presença viva de outro ser humano que nenhuma tecnologia consegue replicar, e fingir o contrário seria desonesto. Mas acredito que podemos usar a IA para criar um espaço de organização interna que a maioria das pessoas simplesmente não tem. O app já está disponível na App Store e no Google Play como Fale com Amia.
A Vistage teve um papel muito importante nessa trajetória. Quando entrei, estava procurando mais conexões. Num processo de análise dentro dos grupos, algo que emergiu foi a necessidade de desenvolver a coragem. Aquilo bateu fundo em mim; eu sempre fui um designer muito de bastidores, nunca fui muito de me expor. A Vistage me ajudou a perceber que existem várias formas de aparecer no mundo e que eu podia ser um empreendedor, que é uma forma altamente criativa de existir.
Na minha opinião, as doenças mentais são o problema do século XXI, e muitas delas estão relacionadas com essa performance compulsória. A Amia é uma tentativa honesta de diminuir um pouco isso.
No Reino, essa mesma visão aparece de forma mais concreta no trabalho com marcas e produtos digitais: ajudamos empresas, a transformar estratégia, identidade e experiência em sistemas visuais claros, consistentes e memoráveis.
A Amia ainda pode seguir por muitos caminhos, mas todos partem da mesma intenção: usar tecnologia para ampliar a capacidade humana de se compreender melhor.
No fundo, é sempre a mesma aposta. O Reino ajuda marcas a se comunicar com o mundo. A Amia ajuda pessoas a se comunicar consigo mesmas. São projetos diferentes, mas fazem a mesma pergunta: o que você ainda não disse, para o mundo, e para si mesmo?
Comunidade Vistage
Grandes ideias crescem quando encontram as pessoas certas.
Foi numa conversa dentro da Vistage que Pedro Brêtas encontrou a coragem de ir além dos bastidores e transformar uma ideia em produto. A Vistage é uma comunidade global de CEOs e altos executivos que se reúnem em grupos exclusivos para compartilhar desafios reais, tomar decisões melhores e crescer — como líderes e como pessoas.