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Liderança com Propósito: A Trajetória de Simone Pszczol na Conservação dos Oceanos

Entrevista com Simone Siag Oigman Pszczol, fundadora e presidente do Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio)

A paixão pelo oceano começou na infância e acabou definindo a carreira de Simone Siag Oigman Pszczol. Bióloga marinha, fundadora e presidente do Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio), ela encontrou na ciência um caminho para aproximar conservação ambiental, pessoas e desenvolvimento sustentável.

Sua trajetória passa por pesquisas com corais em Búzios, articulação de políticas públicas, projetos de economia azul e pelos desafios de manter uma organização do terceiro setor. Ao longo desse percurso, Simone aprendeu que boas ideias precisam de parcerias, planejamento e uma equipe comprometida para ganhar continuidade.

Em conversa com a Vistage Brasil, ela conta como construiu essa jornada, fala sobre os desafios da liderança e compartilha o que mudou em sua forma de gerir o BrBio depois de participar de um grupo de empresários e executivos.

Uma paixão pelo oceano que se transformou em profissão

Simone, você pode contar um pouco da sua trajetória? O que despertou seu interesse pelo oceano e quais experiências foram decisivas para sua vida pessoal e profissional?

Simone Pszczol:

Sou bióloga marinha e completamente apaixonada pelo oceano, um encanto que carrego desde a infância. Recentemente, percebi que essa paixão também está profundamente ligada às minhas raízes familiares e à música. Afinal, a cultura tem um poder único de nos aproximar da natureza — uma conexão que se tornou muito clara para mim há pouco tempo.

Minha jornada começou ainda na escola, em excursões marcantes para a Ilha Grande e Búzios. Anos mais tarde, na hora de decidir qual carreira seguir, a certeza veio de forma quase poética: eu estava na praia de Ipanema quando pensei: “Quero estudar o que existe debaixo da água. Quero ser bióloga marinha.”

Fiz a graduação na UFRJ e, durante a minha monografia, compreendi o quanto a pesquisa científica é vital para construir um conhecimento sólido sobre a biodiversidade. Ao mesmo tempo, percebi que era preciso equilibrar a ciência básica com a aplicação prática, permitindo que o conhecimento gerasse impactos reais e em grande escala.

Minha segunda grande imersão aconteceu em Búzios, na Região dos Lagos, um lugar que sempre fez parte da minha vida. Apesar da enorme importância ambiental da região, havia pouco conhecimento científico sobre aquele oásis coralíneo e sobre a pressão das atividades humanas. Assim, transformei meu mestrado na missão de avaliar a saúde dos corais e contribuir para a conservação desse ecossistema.

No início, enfrentei um baita desafio: a dimensão do trabalho era enorme e eu não tinha recursos financeiros. Foi aí que a minha veia empreendedora (que eu não sabia que tinha) falou mais alto. Recrutei cinco amigos da universidade, e junto do meu orientador, coloquei o plano de trabalho debaixo do braço e fui para Búzios dialogar diretamente com a comunidade. Conversei com comerciantes, hoteleiros, donos de restaurantes, lojistas e operadoras de mergulho. Com o apoio dessa rede local, consegui viabilizar praticamente toda a minha jornada acadêmica de mestrado e doutorado.

Na época, eu era estudante da UERJ, e o Projeto Ecorais acabou rompendo as barreiras da academia. Entendi que, para realizar uma pesquisa de longo prazo, era fundamental construir parcerias locais e engajar as pessoas.  O Projeto virou até pergunta no vestibular de 2000 quando comecei.

Toda a facilidade que tive para liderar e comunicar esse projeto não veio dos livros, mas percebo melhor agora que veio da minha formação quando jovem também, da minha longa experiência na loja de bebê e gestante Girofl6e Giroflá junto da minha mãe que era empresária e da colônia de férias Kinderland, onde aprendi cedo a interagir e cuidar de pessoas em torno de um propósito comum, tendo passado por colonista, monitora, instrutora de natureza, coordenadora e membro da comissão pedagógica atualmente.

O Projeto Ecorais continua ativo até hoje, com a sua área de pesquisa atualmente capitaneada por pesquisadores da PUC, foi uma importante parte do meu mestrado, doutorado e pós-doutorado. Ao longo do caminho, ampliei minha bagagem na área internacional com um doutorado-sanduíche no Mar Vermelho, trabalhando ao lado de pesquisadores renomados e me conectei ainda mais com a sociedade, oferecendo ao governo e academia, dados, experiências e conexões para subsidiar melhores decisões,  como a criação do Parque dos Corais e da Área de Proteção Ambiental Marinha de Búzios. Essa experiência me mostrou que fazer ciência também significava criar laços, escutar e construir relações de confiança para melhorar a vida de pessoas e a coexistência neste planeta.

Foi a partir dessa visão que nasceu, em 2013, o Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio), uma OSCIP que fundei com colegas cientistas e do terceiro setor. Hoje, como presidente, desenvolvemos ações que apoiam a ciência, a educação, a cultura, a política oceânica e o turismo azul. No terceiro setor, encontrei o espaço ideal para unir a produção de conhecimento ao benefício real para a sociedade.

Em 2020, após a trágica perda de Alfredo Syrkis, figura fundamental para o movimento ecológico brasileiro, fui convidada por Guilherme Syrkis para assumir a diretoria de gestão do Centro Brasil no Clima (CBC), um think tank focado em políticas de descarbonização e advocacy. Tive o privilégio de participar e contribuir na reestruturação e consolidação do CBC. Foram três anos intensos ao lado de economistas, cientistas e políticos, pessoas e processos que me trouxeram um aprendizado enorme em liderança e gestão. Nesse período, também fiz o Programa de Formação de Dirigentes da Fundação Dom Cabral. Vivenciar uma nova organização foi muito importante e um divisor de águas para o meu crescimento como gestora, e também como quem precisa ter uma visão técnica mais integrada ao sistema e as agendas de clima e biodiversidade.

Vale muito aqui contar que essa relação entre entre 2 ONGs, clima, oceano trouxeram a interação de importantes iniciativas brasileiras. Essa aproximação gerou um policy brief “Sem o Azul, a conta não fecha: inclusão do oceano nas políticas públicas climáticas brasileiras”, desenvolvido pela Liga das Mulheres pelo Oceano, Instituto Talanoa, CBC e o BrBio. Levamos esse documento à COP27 para propor estratégias de redução de emissões aos governos estaduais, reconhecendo o papel crucial do oceano no clima. No entanto, movida ainda fortemente pelo desejo de conectar a agenda do planeta com toda minha capacidade à conservação e ciência marinha, e de promover a jornada ESG de fato na sociedade, decidi redirecionar meus esforços integralmente para o “azul” e focar novamente no BrBio em 2024.

Sou há 11 anos membro do Comitê Científico da TiME (This is My Earth), uma organização internacional que busca proteger terras privadas de alta biodiversidade, transformando qualquer pessoa em uma tomadora de decisão na área da conservação. Conhecer novas iniciativas de conservação no mundo também é outra faceta importante que me permite abrir novos horizontes, organizações e entender novos processos.

Quando falo de sustentabilidade, falo de pessoas, histórias de vida, pertencimento e afeto, e sobre a nossa capacidade de juntos, aprendermos a cuidar daquilo que de fato importa e podemos mudar. Assim, acredito muito que nos conhecer melhor, aprimorar e realizar conexões de qualidade são aspectos fundamentais para alcançar nossos sonhos e missões.

Os desafios de liderar e manter o BrBio

Liderar o BrBio envolve ciência, políticas públicas, parcerias e gestão de pessoas. Como é seu dia a dia e o que mais desafia você na condução do instituto?

Simone Pszczol:

Meu dia a dia é intenso e muito diverso. Ao mesmo tempo em que atuo na área técnica, lidero pessoas e equipes de áreas diferentes. No fim das contas, meu trabalho é construir pontes entre diferentes setores e áreas do conhecimento para fazer mellhores conexões e termos melhores e mais eficientes resultados. Essa diversidade fortalece nossos valores e cultura organizacional, alén de impactra diretamente a forma como desenhamos e executamos os projetos.

Tenho o privilégio de liderar uma equipe transdisciplinar maravilhosa, com profissionais das áreas científica, cultural, ambiental, governamental, empresarial e de comunicação. Meu papel é integrar os saberes técnicos, jurídicos e financeiros para que todos trabalhem em perfeita sinergia. Acredito que essa articulação e cadência traz mais coerência e consistência para o nosso trabalho.

Desde o início do BrBio, eu já sabia que o maior desafio seria o próprio ato de empreender. Manter uma organização do terceiro setor com nível de excelência, e ainda fundamentada na ciência, exige esforço e muita visão estratégica. Não basta desenvolver ótimos projetos; é preciso preservar uma equipe qualificada, se dedicar intensamente para crescer de forma ordenada e assim procurar alcançar a sustentabilidade da Instituição.

Entender essa complexidade exigiu uma grande transformação em mim mesma.
Compreendi que o caminho está no desenvolvimento de projetos contínuos e de longo prazo. Esse foi um dos principais aprendizados da primeira década do BrBio. A conservação e a sustentabilidade exigem perenidade, planejamento e compromisso permanente. Para isso, investi em uma cultura organizacional sólida.

Hoje, o BrBio está estruturado em quatro programas principais:

  • Transformar: que estimula soluções ligadas à economia azul;
  • Pegada Ambiental: focado em educação não formal e vivências de conservação, ciência e cultura oceânica;
  • Política Oceânica: que atua no fortalecimento de políticas públicas;
  • Turismo Azul: que impulsiona o desenvolvimento sustentável valorizando a biodiversidade como um ativo do país.

Essa engrenagem multifacetada é uma de nossas características mais fortes, junto com a liderança e o grupo fortemente feminiino. O sentimento de pertencimento é profundo e a equipe se mantém unida e engajada, trabalhando ou não em algum projeto. Quem entra para o instituto, dificilmente sai; em geral permanece conectado à nossa rede buscando de alguma forma ou em algum momento contribuir.

Essa cultura está em toda equipe, no conselheiros, colaboradores e parceiros que aos poucos, contribuiem muito para o nosso amadurecimento também e ampliação. E é essa energia que me move no dia dia e não me faz deixar a peteca cair, mesmo no dia mais difícil!

De Búzios a Mônaco: encontros que ampliam projetos

Você esteve recentemente em Mônaco em um compromisso ligado à biodiversidade marinha. Como surgiu essa oportunidade e o que essa experiência representa para você?

Simone Pszczol:

Foi com ousadia e propósito que vivi essa história em Mônaco, e o resultado foi simplesmente incrível! A oportunidade surgiu quando meu marido, Eduardo Pszczol, recebeu um prêmio da empresa onde trabalha. Assim que soubemos o destino da viagem, pensei imediatamente: “O Príncipe Albert II é uma das maiores referências mundiais na defesa dos oceanos. Preciso conversar com ele.” Eu não fazia ideia de como faria isso, mas tinha a convicção de que encontraria um caminho.

Por meio do conselheiro e pesquisador Alexander Turra, da USP, consegui o contato com a Fundação Príncipe Albert II de Mônaco.

Após uma reunião inicialmente remota no Rio, tive a honra de conhecer em Monaco ao vivo e a cores, o Príncipe Charles Philippe d’Orléans, vice-presidente da Fundação para ações na América Latina. Estamos estruturando para o Rio de Janeiro um projeto com potencial de impacto nacional e internacional e diante desta interação, começamos a construir uma nova relação que será chave para o Brasil e mundo!

Às vezes brinco que, quando fazemos o que amamos, surgem encontros que parecem improváveis. Mas a verdade é que eles acontecem porque há dedicação, perseverança e uma vontade genuína de construir algo maior.

Essa mesma energia se reflete em outros marcos do instituto. No meio de tantos desafios, considero um verdadeiro presente ter conhecido o querido Gilberto Gil e poder tê-lo conosco na presidência do nosso conselho curador. Eu nunca imaginei que isso aconteceria, e essa conquista reforça a certeza de que nunca devemos deixar de sonhar. No início dos anos 2000, quando eu estava em Búzios estruturando o Projeto Ecorais, rascunhei uma carta para o Gil. Eu tinha pouco mais de 20 anos e alimentava o sonho de que ele um dia fizesse um show cuja renda ajudasse a financiar o projeto. Era um desejo distante, mas que já mostrava a minha vontade de aproximar a cultura da conservação ambiental. Anos mais tarde, logo no início do BrBio, parceiros do terceiro setor me proporcionaram um encontro inesperado com ele. Isso é prova de que, às vezes, os sonhos encontram caminhos imprevisíveis.

O espaço da biodiversidade nas empresas e na sociedade

A biodiversidade ganhou muito mais atenção desde o início da sua carreira. O que mudou na relação das pessoas e das empresas com a conservação ambiental?

Simone Pszczol:

A sociedade está mudando. Vejo hoje muito mais pessoas atentas às questões ambientais do que há 26 anos, quando comecei. No início da minha carreira, as conexões mais profundas entre nossas escolhas e ações de conservação, aconteciam de forma mais superficial. Hoje, parte dessa consciência parece impulsionada pela urgência climática, e aos poucos vem passando a fazer parte do cotidiano das pessoas. Alguns estudos recentes mostram que cerca de 80% das pessoas afirmam ter disposição para mudar hábitos em benefício do oceano. Esse dado, por si só, é um avanço, especialmente quando boa parte da população vive perto do litoral e precisa de uma outra forma de se relacionar com o oceano!

A verdade é que quando os impactos chegam à nossa porta, passamos a olhar para eles de outra forma, como vimos com os eventos climáticos extremos que têm afetado o Brasil. As pessoas perceberam que chuvas intensas, secas prolongadas e enchentes impactam diretamente nossa qualidade de vida e segurança. O grande desafio atual não é mais a falta de interesse, mas a falta de direcionamento e real engajamento: uma pesquisa da UNIFESP, em parceria com a Fundação Grupo Boticário, mostra que cresce o número de pessoas que desejam contribuir, mas que não sabem como transformar essa intenção em ação.

É exatamente nesse ponto que o BrBio atua, oferecendo caminhos concretos para que o desejo e compromisso virem atitude diária. Essa transformação cultural reflete-se claramente no setor empresarial e na própria sociedade civil. Nesta segunda década, o BrBio vem consolidando a nossa atuação junto às empresas por meio de projetos voltados para o turismo azul e a economia azul, que trazem fortes pilares sociais, ambientais e de governança. A cultura oceânica vem ampliando globalmente e localmente, alcançando diferentes gerações mas ainda é um movimento que precisa de mais envolvimento no Brasil.

Essa onda de sensibilização é tão forte que transborda por perto. Minha filha mesmo escolhendo cursar Engenharia de Produção, disse quando tinha 14 anos, depois de trabalhar no BrBio voluntariamente com 400 crianças em uma ação de conservação marinha junto a escolas públicas que, a sustentabilidade estava dentro dela independente da profissão que ela escolhesse.

Essa é mudança que tanto sonho. Que a conservação da biodiversidade deixe de ser um nicho de biólogos e se torna uma missão coletiva, geracional e multidisciplinar.

O que a convivência com outros líderes trouxe para Simone

Vistage Brasil: Você participa da Vistage há alguns anos. O que mudou na sua forma de liderar e tomar decisões? O que diria a outros executivos que ainda não conhecem essa experiência?

Simone Pszczol:

Participo do grupo há cerca de três anos e essa experiência tem sido outro verdadeiro divisor de águas. Como deu para notar, sempre me envolvo profundamente com tudo o que faço, movida por propósito e paixão. No entanto, aprendi que, para sustentar esse ritmo no longo prazo, é fundamental manter o equilíbrio e a saúde.

Nesse processo, a convivência com os membros do meu grupo e o apoio do meu mentor, Antônio Carlos Laet, são chaves no meu amadurecimento como líder e nas minhas escolhas estratégicas.
Ao longo desses anos, incorporei aprendizados valiosos que me ajudaram a aprimorar a gestão da organização, fortalecer o planejamento estratégico, escolhas para tornar a execução mais eficiente e com mais resultados. Hoje, sinto que atuo com mais clareza, foco e segurança.

Empreender nunca é simples, especialmente no terceiro setor. E um dos maiores ensinamentos que a Vistage proporciona é perceber que, independentemente da área de atuação, as dores da liderança são universais. Conviver com empresários de segmentos tão distintos, amplia consideravelmente a visão e o aprendizado. Embora os contextos de mercado sejam diferentes, os desafios de gerir pessoas e negócios são comuns a todos.

Essa diversidade torna as trocas extremamente ricas. Aprendemos com as experiências uns dos outros, aperfeiçoamos nossos processos internos e, principalmente, encontramos um ambiente seguro e de confiança para compartilhar vulnerabilidades, expor dúvidas e refletir coletivamente. Toda essa vivência tem gerado impactos práticos na evolução do BrBio, na minha postura executiva e na minha vida.

Em uma rotina intensa e de quem trabalha com o que ama e quem ama, ficou também evidente através de conversas, métodos e reflexões que preservar a minha saúde e da equipe seria fundamental na prática para liderar e viver melhor. E por isso também sou muito grata às pessoas no Vistage!

Liderar também é aprender com outras experiências

A história de Simone reúne ciência, empreendedorismo e uma rede de pessoas que compartilham o compromisso com a conservação ambiental. À frente do BrBio, ela encontrou desafios de gestão que também fazem parte da rotina de líderes de outros setores: formar equipes, planejar o futuro e tomar decisões difíceis. Na Vistage, a troca de experiências com outros empresários e executivos passou a fazer parte desse aprendizado.

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