Blog

Negócios que mudam vidas – Eduardo Moura Cofundador e Diretor Executivo da Pulse Mais

Convidamos Eduardo Moura, membro Vistage do grupo 118 e Cofundador e Diretor Executivo da Pulse Mais, para compartilhar uma visão franca sobre as movimentações da instituição e o impacto concreto que ela vem gerando na formação de jovens talentos. 

Em um momento em que o mercado de tecnologia exige preparo, visão estratégica e coragem para inovar, a Pulse Mais se destaca ao conectar experiência e oportunidade. Neste artigo, unimos a perspectiva de quem já construiu uma trajetória sólida no setor à energia de jovens que desejam iniciar sua própria jornada profissional — mostrando como orientação, acesso e propósito podem transformar vidas e abrir caminhos reais para o futuro. 

História da Pulse Mais 

A Pulse Mais começou como um projeto de voluntariado de um executivo do Mercado de Tecnologia que, na adolescência, foi um jovem periférico e teve sua vida transformada por uma empresa de tecnologia. Então, o Thiago Lima foi precursor desse movimento, com a intenção de reunir pessoas que quisessem contribuir com essa causa de forma voluntária. 

Ao longo desse primeiro ciclo, houve uma evidência muito positiva: muita gente querendo apoiar. Diante disso, ele decidiu encontrar alguém que pudesse empreender a organização, com o intuito de pegar a parte histórica inicial e transformar em uma organização que se profissionalizasse e tivesse uma atuação relevante dentro do setor. 

Uma das nossas maiores prioridades e valores é o jovem em primeiro lugar. Teve um jovem que usou um termo de que gostamos bastante: a Pulse Mais é “jovencêntrica”, porque o jovem está realmente no centro de todas as decisões que tomamos. Semana passada tivemos reunião de conselho, e isso ficou muito claro. 

Isso se cruza com a minha história, porque eu não fui um jovem periférico, mas sempre me incomodaram as questões de injustiça social e desigualdade socioeconômica. Foi no processo de reconhecer meus privilégios que cheguei à conclusão de que esse incômodo me colocava no exercício — que entendo ser algo do meu perfil — de ser proativo diante das coisas que me incomodam. 

Quando tive o encontro com isso que é uma característica minha — quando encontro algo que me toca de forma profunda e muito única — percebi que não era só trabalhar com impacto social, nem apenas decidir dedicar minha carreira a isso. Foi entender que, dentro desse universo, os jovens são nossa melhor aposta para construir um país mais próspero e justo para todos. É nisso que eu acredito. 

Essas novas gerações trazem consigo uma herança e uma responsabilidade: fazer um mundo melhor a partir de um mundo pelo qual elas não tiveram responsabilidade de estar como está. Acredito que a juventude está pronta para ser protagonista nesses espaços de poder e tomada de decisão. Serão líderes melhores do que tivemos — não que os líderes que tivemos sejam ruins, mas precisamos de melhores. E, se a liderança atual entende isso e quer que as próximas pessoas que ocupem seus cargos sejam melhores do que elas, teremos um encontro positivo de transformações que podemos gerar na nossa sociedade. 

Carreiras em tecnologia 

As carreiras em tecnologia têm tudo a ver com isso. As empresas estão cada vez mais tecnológicas, e as tecnologias emergentes continuarão surgindo em intervalos cada vez menores, trazendo transformações disruptivas na sociedade, mudando a forma como nos relacionamos e produzimos. 

As carreiras em tecnologia têm média salarial maior e promovem uma progressão mais acelerada. Para o jovem da periferia que não tem oportunidade, poder chegar nesse lugar e entender o potencial de empregabilidade é fundamental. O maior déficit de profissionais está nesse setor. É aqui que há o encontro entre desafio e oportunidade. 

Na sua visão, qual é a maior desigualdade que ninguém fala sobre o acesso do jovem ao setor de tecnologia? 

Conectividade e acesso a dispositivos digitais. O jovem de baixa renda, na maioria das vezes, não tem um bom computador nem bom acesso à internet. Hoje existe um lugar da cidadania que é digital, tanto no aspecto ético — entender como ter segurança online — quanto no exercício efetivo da cidadania. 

Por exemplo: para fazer um curso online, ele precisa desses recursos. Não adianta o curso ser online ou ter apoio de uma ONG, nem ter uma linguagem acessível, se for necessário o uso de um computador e ele só tiver um celular. 99% dos brasileiros têm celular, mas a grande maioria não tem computador. 

A Pulse Mais vem impulsionando isso: em 2025 doamos, em média, 46 computadores para jovens periféricos, dando capacidade de participação plena nos cursos, inclusive nos formatos híbridos. Sempre pensamos: o que é preciso ter antes de oferecer um curso para um jovem? Essa é uma premissa. É necessário garantir dispositivo e internet de qualidade. 

O segundo ponto é o deslocamento. Os jovens estão distantes, em regiões periféricas, enquanto muitos cursos estão localizados em regiões centrais. Muitas vezes, acredita-se que apenas oferecer o curso já resolve o problema, mas o deslocamento continua sendo complexo. Quem leva duas horas para ir e duas horas para voltar do trabalho não tem a mesma capacidade de aprendizado de quem mora a dez minutos. Há estudos que mostram que longos deslocamentos estão relacionados até a menor expectativa de vida. 

O terceiro ponto, que me incomoda muito, é que as empresas não assumem responsabilidade pelos requisitos que exigem nas vagas. Querem um jovem aprendiz sênior, sendo que o Jovem Aprendiz é uma política pública, uma lei de aprendizagem para inclusão socioprodutiva. Jovem aprendiz não é para ter experiência prévia. 

Além disso, muitas empresas utilizam o estágio como mão de obra barata. O estágio não protege suficientemente o estagiário. Há empresas que querem que o estagiário seja responsável por metas. Existe um desencontro entre o que são realmente as funções e os caminhos que as empresas encontram para gerar mais produtividade com menos custos. Esse é um grande incômodo e uma das frentes mais complexas, porque é algo que todo mundo faz, mas ninguém fala sobre isso. Os RHs estão fazendo. 

Baixa autoestima dos jovens 

Esse é um ponto muito importante, especialmente em entrevistas. Fizemos um teste no ano passado: colocamos um mentor muito bom em preparação para entrevistas para preparar o jovem um dia antes da entrevista. O que percebemos? O jovem recebia uma injeção de confiança e autoestima, e isso foi determinante para seu desempenho. Em cinco casos, quatro foram aprovados. 

Já realizamos esse processo, mas não tão próximo da entrevista. Foi curioso perceber essa hipótese: o jovem era qualificado, só faltava segurança. Ele sabia o que queria, conhecia a empresa, estava alinhado à cultura. O que faltava era essa injeção de autoestima. 

Temos um curso no nosso portfólio chamado Fortalecimento Emocional, que trabalha três pilares: autoconfiança, autoconhecimento e autoconsciência. Desenvolvemos conteúdos em sala de aula com educadores socioemocionais, com atividades que promovem esse encontro do jovem consigo mesmo. 

Isso dialoga muito com frases como: “eu não sei o que eu quero”, “não sei no que sou bom”, “não tenho certeza do que quero”, “não sei se o que tenho é suficiente”. E está tudo bem — são questões inerentes à juventude. Eu me lembro que, quando tinha 18 anos, isso também era difícil. Encontrar esse lugar exige dedicação e trabalho. 

Outro ponto é o espaço para cuidar da saúde mental. O que endereça de forma sustentável essa falta de confiança não é apenas um curso. O que traz resultado no longo prazo é oferecer suporte para que os jovens consigam atravessar os desafios quando estiverem empregados. Muitas vezes, eles não se sentem pertencentes, não se sentem conectados ao gestor e continuam achando que aquele espaço não é para eles. 

Não acho que sejam coisas a serem “curadas”. Os jovens precisam honrar o lugar de onde vieram. Esse é um pilar que fortalecemos: honrar a origem e manter conexão com suas memórias e afetos. 

O pilar de saúde mental tenta endereçar isso de forma mais profissional e sustentável, inclusive pensando nos desafios futuros. 

Uma dica para as empresas 

Estruturem, de forma intencional, como avaliam as oportunidades dentro da empresa, para que não exista injustiça velada. Alguma medida de injustiça sempre existirá, mas a empresa precisa refletir: como entendo esse contexto? O que preciso fazer diferente nesse processo? 

Não acredito que, só porque a pessoa está dentro da empresa, ela tenha as mesmas oportunidades. Se houver uma mulher negra e um homem branco disputando a posição de CEO, na maioria das vezes o homem branco sobe. Então, quem está no topo precisa refletir sobre o processo. Começa pela reflexão. 

Case: história que guardo no coração 

Tem uma história que me toca muito: a de uma jovem que veio do interior da Bahia para São Paulo em busca de melhores oportunidades. Ela mora em uma região periférica, com o irmão, em condições muito simples. Dividiam um cômodo e até a mesma cama, trabalhando em períodos diferentes para poderem usá-la. 

Ela sonhava em entrar no mercado de tecnologia. Estava como jovem aprendiz em Recursos Humanos, mas não se identificava com a área. Queria sair, mas precisava da renda. Na rotina apertada, quase não havia tempo para um curso, até que conseguiu encaixar a Pulse Mais na sua rotina. 

Ela foi um dos destaques do ano passado. Se desdobrava para participar das aulas presenciais e aproveitar todas as oportunidades de aprender. Via muito valor em tudo. 

O resultado veio: hoje está empregada em uma empresa de tecnologia parceira nossa, em um estágio. Ainda não é uma posição em tecnologia, mas tem contato com a área. Também conquistou uma bolsa em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e está se qualificando para alcançar uma posição mais técnica. 

Há um tempo, ela me contou que estava em dúvida se era isso que queria para o futuro. Conversamos, e ela entendeu que faz sentido, sim. Ela gosta do que faz. Ainda não está na posição desejada, mas é um processo. Está desenvolvendo habilidades e construindo uma base técnica mais sólida para, em breve, chegar a algo mais alinhado com seus objetivos.

Empresas parceiras: como participar do ecossistema 

Para pessoa física que quer contribuir com nosso propósito, há dois caminhos: ser mentor ou voluntário. Todos os mentores passam por formação obrigatória para estarem qualificados a mentorear os jovens selecionados nos programas. Esse passo é inegociável. 

Entendemos que alguém pode ter empatia e achar a causa importante, mas só quando se depara com aquela realidade é que realmente se transforma. A mentoria proporciona isso: o mentor passa a enxergar o jovem por completo. 

A segunda forma de envolvimento é por meio de doações. As doações permitem que continuemos fazendo o que fazemos. Quem doa assume um compromisso que vai além da dedicação de tempo. O tempo é valioso e finito, mas o recurso financeiro é o que permite escalar e ampliar a atuação da Pulse Mais. 

Para as empresas, também existem essas duas frentes: desenvolver líderes por meio da experiência de mentoria e da metodologia de liderança, tanto na formação quanto na vivência prática. Isso pode integrar o plano anual de desenvolvimento de lideranças. 

Assim, unimos um programa de voluntariado que fortalece o clima interno, a cultura, o engajamento e a marca empregadora. 

Há também empresas que não querem estruturar um programa específico de voluntariado, mas desejam contribuir. Elas podem doar e estabelecer uma relação com a organização, obtendo benefícios como atração e qualificação de talentos e posicionamento de marca junto à nossa rede de mais de 300 mentores executivos. 

Compartilhar postagem