Analisando pela ótica corporativa, a palavra “propósito” evoluiu de um diferencial para um requisito. CEOs, fundadores e empreendedores são quase que intimados a ter uma narrativa poderosa, uma causa maior que transcenda o lucro. Contudo, em meio a essa busca incessante por um legado significativo, uma linha tênue e perigosa se desenha. Este texto é o convite para uma reflexão honesta sobre o dilema que poucos admitem em voz alta: a complexa relação entre propósito e vaidade.
Afinal, o desejo de impactar positivamente o mundo é genuíno ou, em alguns casos, tornou-se a roupagem mais elegante para o ego? Este não é um artigo com respostas fáceis. Pelo contrário, é um espelho para a liderança corajosa que não teme questionar suas próprias motivações.
Boa leitura.
Houve um tempo em que o sucesso era medido por balanços financeiros robustos. Hoje, no entanto, o “storytelling” do líder parece valer tanto quanto os resultados. E é justamente nesse palco que o propósito corre o risco de virar performance.
Quando a missão da empresa se confunde com a construção da marca pessoal do seu líder, o propósito deixa de ser um norte para a organização e se transforma em um roteiro para aplausos.
As decisões, consequentemente, podem começar a ser tomadas não pelo bem do negócio ou da causa, mas pelo potencial de gerar uma boa matéria, um post viral ou um convite para palestrar no evento do ano.
Em outras palavras, o propósito se torna uma ferramenta de autopromoção. E, embora a visibilidade do líder seja importante, quando a vaidade dita as regras, a autenticidade se esvai, deixando para trás uma cultura organizacional que aprende a performar em vez de executar.
Reconhecer quando o ego está sequestrando a narrativa do propósito é um exercício de autoconsciência brutal. Portanto, como identificar os sinais de que a balança está pendendo mais para a vaidade?
Analise as entrevistas, os posts e as reuniões. A história contada é sobre “a minha jornada”, “o meu sacrifício” e “a minha visão”? Ou ela se concentra no impacto gerado pela equipe, nas soluções criadas para os clientes e no sucesso coletivo? Um propósito genuíno é, acima de tudo, compartilhado. A vaidade, por outro lado, é inerentemente individualista.
O sucesso das iniciativas de “impacto” é medido pelo engajamento nas redes sociais e pela repercussão na mídia ou pelos indicadores concretos de transformação (seja na vida do cliente, na comunidade ou no meio ambiente)? Se a frustração com a falta de reconhecimento externo é maior que a satisfação pelo resultado real, este é um forte alerta.
Um líder guiado por um propósito autêntico vê a crítica como um insumo para refinar a rota. Por outro lado, um líder movido pela vaidade enxerga qualquer questionamento como um ataque pessoal. A necessidade de defender a “narrativa de propósito” a qualquer custo, ignorando falhas e feedbacks, demonstra que a imagem se tornou mais importante que a causa.
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E se engana quem pensa que essa reflexão é apenas filosófica; ela tem respaldo em dados.
Um estudo seminal publicado no Administrative Science Quarterly por A. Chatterjee e D. C. Hambrick, intitulado “It’s All About Me: Narcissistic Chief Executive Officers and Their Effects on Company Strategy and Performance”, trouxe luz a essa questão.
A pesquisa revelou que CEOs com traços narcisistas mais elevados tendem a tomar decisões estratégicas mais arriscadas e dinâmicas, buscando ações que gerem grande atenção da mídia e do público. Embora isso possa levar a picos de performance, também resulta em maior volatilidade e inconsistência nos resultados.
Em resumo, a pesquisa demonstra que um ego inflado na cadeira de liderança pode priorizar o “show” em detrimento da sustentabilidade e da estabilidade do negócio, mascarando essa busca por holofotes como “visão arrojada” ou “propósito disruptivo”.

Se esta análise gerou algum incômodo em você, ótimo. A transformação começa no desconforto. Então, como recalibrar a bússola e garantir que a liderança sirva a um propósito maior que o próprio ego? Aqui estão algumas pistas:
No fim do dia, a batalha entre propósito e vaidade é silenciosa e interna. Ela acontece em cada decisão, em cada discurso e em cada momento de reflexão.
Liderar com propósito genuíno não significa ter a história mais inspiradora para contar, mas sim construir uma realidade que inspire os outros a agir. É sobre ser o arquiteto de uma causa, e não a estrela do espetáculo. A pergunta final que todo líder deve se fazer é: minha liderança é sobre o quê ou, no fundo, é apenas sobre quem?
As reflexões sobre propósito e vaidade são complexas e, muitas vezes, difíceis de navegar sozinho, nós sabemos. Ter um ambiente seguro e confidencial para debater esses e outros desafios estratégicos, com outros líderes que entendem a sua realidade, não é um luxo, é uma necessidade para uma liderança autêntica e de alto impacto.
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Até o próximo artigo!